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Blues

Etta James: a Voz de "At Last" e a Ponte entre Blues e Soul

Há vozes que parecem caber em um único gênero, e há vozes que atravessam vários. Etta James pertence ao segundo grupo. Ao longo de mais de cinco décadas, gravou rhythm and blues, blues, soul, baladas com orquestra, rock and roll e até jazz — e em todos eles a marca era a mesma: uma potência vocal crua, capaz de passar do sussurro ao grito sem perder a afinação nem a emoção. “At Last”, sua gravação mais famosa, se tornou uma das canções de amor mais tocadas do século XX. Esta é a trajetória musical por trás dessa voz.

Início precoce: Johnny Otis e “The Wallflower”

Jamesetta Hawkins nasceu em 25 de janeiro de 1938, em Los Angeles. Cantou ainda criança em coros de igreja, uma formação comum entre as grandes vozes do R&B e do soul, e começou a se apresentar em grupos vocais na adolescência.

Foi descoberta pelo bandleader e produtor Johnny Otis, uma das figuras centrais do R&B da Costa Oeste, quando tinha cerca de 14 anos. Com ele, gravou “The Wallflower” — também conhecida como “Roll with Me, Henry” —, uma resposta a um sucesso de R&B da época. Lançada no início de 1955, a canção chegou ao primeiro lugar da parada de R&B. Foi também nessa fase que Jamesetta adotou o nome artístico Etta James.

Chess Records e “At Last”

Em 1960, Etta James assinou com a Chess Records, de Chicago — a mesma gravadora de Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Chuck Berry, e uma das casas mais importantes da história do blues e do rock and roll. Na Chess, seu repertório ganhou uma nova dimensão: além do R&B, ela passou a gravar baladas com arranjos de cordas.

A mais importante delas foi “At Last”. A canção, de Mack Gordon e Harry Warren, havia sido composta nos anos 1940 e lançada originalmente no repertório das big bands, associada à orquestra de Glenn Miller. Na versão de Etta James, ganhou um arranjo orquestral exuberante e, sobretudo, uma interpretação que transformava a balada romântica num momento de entrega quase dolorosa.

Lançada como single, “At Last” chegou ao segundo lugar da parada de R&B e ao 47º lugar da Billboard Hot 100 no início de 1961. Os números não dão conta da longevidade da gravação: ao longo das décadas seguintes, ela se tornou uma das canções mais tocadas em casamentos, filmes e comerciais, e a versão de referência da música.

A técnica: potência, aspereza e controle

O que torna a voz de Etta James tão estudada por cantores é a combinação de elementos que costumam estar separados:

Essa combinação permitia que ela cantasse uma balada com orquestra e um blues áspero com a mesma autoridade.

“Something’s Got a Hold on Me” e o lado gospel

Em 1962, “Something’s Got a Hold on Me” mostrou outro lado de Etta James: uma canção de forte influência gospel, com chamado e resposta e uma energia crescente, que chegou ao quarto lugar da parada de R&B. A gravação ganharia uma segunda vida décadas depois, quando o DJ sueco Avicii usou um trecho dela em “Levels” (2011), um dos maiores sucessos da música eletrônica daquela década — apresentando a voz de Etta James a uma geração inteira de novos ouvintes.

Muscle Shoals: “Tell Mama” e “I’d Rather Go Blind”

Em 1967, Etta James gravou no FAME Studios, em Muscle Shoals, no Alabama, um dos estúdios lendários do soul sulista, com a banda de estúdio da casa. O resultado foi um som mais cru e terroso, que aproximava seu canto do soul de Memphis e do Sul dos Estados Unidos.

Dessas sessões saiu “Tell Mama”, que chegou ao décimo lugar da parada de R&B. Mas foi o outro lado do single, “I’d Rather Go Blind”, que se tornou um clássico do blues: uma balada lenta sobre a dor de ver a pessoa amada com outra, cantada com uma intensidade contida que é considerada por muitos sua maior interpretação. A canção foi regravada por inúmeros artistas — incluindo, já em 1969, a banda britânica de blues Chicken Shack, com Christine Perfect nos vocais — e se tornou repertório obrigatório de cantoras de blues.

Reconhecimento tardio

Embora tivesse sucessos desde os anos 1950, boa parte do reconhecimento institucional de Etta James veio nas últimas décadas de sua carreira. Foi induzida ao Rock and Roll Hall of Fame em 1993 e ao Blues Hall of Fame em 2001, e recebeu o Grammy pelo conjunto da obra em 2003.

Seus três Grammys competitivos mostram a amplitude de seu repertório: o primeiro, em 1995, foi de melhor performance vocal de jazz, pelo disco Mystery Lady: Songs of Billie Holiday — uma homenagem a uma das cantoras que mais a influenciaram. Os outros dois vieram no blues: melhor álbum de blues contemporâneo, em 2004, por Let’s Roll, e melhor álbum de blues tradicional, em 2005, por Blues to the Bone.

Etta James morreu em janeiro de 2012, aos 73 anos.

A influência sobre gerações

A influência de Etta James aparece em praticamente toda cantora que mistura blues, soul e pop com voz potente e áspera. A revista Rolling Stone a colocou entre as maiores vozes de todos os tempos, na 22ª posição de sua lista de 2008. Em 2008, Beyoncé a interpretou no filme Cadillac Records, sobre a história da Chess Records, incluindo uma versão de “At Last”.

Mais do que uma lista de nomes, porém, o legado de Etta James é um modelo de interpretação: a ideia de que uma cantora pode transitar entre blues, soul, jazz e baladas orquestrais sem perder a identidade, e de que potência e aspereza podem ser instrumentos de precisão.

Para quem canta e quer levar essa entrega ao palco, nosso guia de microfone dinâmico para vocal explica os critérios técnicos para escolher um microfone que aguente vozes potentes sem distorcer. E para entender a tradição de onde Etta James veio, leia sobre as origens do blues.

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