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Jazz

Kenny G: o Saxofone que Vendeu Milhões e Dividiu o Jazz

Poucos músicos instrumentais alcançaram o tamanho de público de Kenny G. Seu sax soprano esteve em rádios, lojas, consultórios, casamentos e trilhas de fim de ano no mundo inteiro, e um de seus discos se tornou o álbum instrumental mais vendido de todos os tempos. Ao mesmo tempo, poucos músicos foram tão criticados por parte da comunidade do jazz. Entender Kenny G é entender o fenômeno do smooth jazz, o encontro entre o saxofone e o pop adulto, e uma técnica — a respiração circular — que ele levou a um recorde mundial. Esta é a trajetória musical por trás desse fenômeno.

Formação: de Seattle ao palco profissional

Kenneth Bruce Gorelick nasceu em 5 de junho de 1956, em Seattle, nos Estados Unidos. Começou a estudar saxofone aos dez anos, depois de ver um saxofonista se apresentar na televisão, no The Ed Sullivan Show.

A carreira profissional começou cedo: aos 17 anos, em 1973, tocou com a Love Unlimited Orchestra, a orquestra que acompanhava Barry White — uma escola de profissionalismo e de música soul orquestrada. Depois, passou por grupos de funk em Seattle e, em 1980, entrou para a Jeff Lorber Fusion, banda de jazz fusion com forte influência de funk e R&B. Foi ali que começou a chamar a atenção da indústria fonográfica.

O contrato com a Arista e “Songbird”

Em 1982, Kenny G assinou com a Arista Records, cujo presidente, Clive Davis, apostou em seu potencial comercial. Os primeiros discos tiveram sucesso moderado, mas o quarto álbum mudou tudo. Duotones, de 1986, trazia “Songbird”, uma balada instrumental conduzida pelo sax soprano, que chegou ao quarto lugar da parada Billboard Hot 100 — algo raro para uma faixa sem voz.

O sucesso de “Songbird” consolidou a fórmula: melodias líricas e fáceis de memorizar, tocadas no soprano com timbre limpo e doce, sobre arranjos de pop e R&B adulto. Era uma música feita para ser ouvida por um público amplo, não apenas por quem acompanhava jazz.

Breathless e o fenômeno do smooth jazz

O auge comercial veio com Breathless, de 1992, que vendeu mais de 15 milhões de cópias no mundo e se tornou o álbum instrumental mais vendido da história. O disco trazia “Forever in Love”, que rendeu a Kenny G o Grammy de melhor composição instrumental. Na sequência, Miracles: The Holiday Album (1994) levou o mesmo estilo ao repertório natalino com enorme sucesso.

Esses discos são o centro do que se convencionou chamar de smooth jazz: uma vertente que mantém elementos do jazz — o saxofone como voz principal, alguma improvisação, harmonias com acordes estendidos — mas prioriza melodia, suavidade e acessibilidade, com produção polida, levadas de pop e R&B e pouca tensão harmônica. Rádios dedicadas ao formato se multiplicaram nos Estados Unidos, e Kenny G se tornou seu nome mais conhecido.

O sax soprano e o timbre

Embora toque também alto e tenor, Kenny G é identificado sobretudo com o sax soprano, o mais agudo dos saxofones comuns e um dos mais difíceis de controlar em afinação. Ele toca saxofones Selmer Mark VI, um modelo clássico entre profissionais.

Seu timbre — leve, cristalino, com vibrato controlado e notas longas no registro agudo — é imediatamente reconhecível. Mesmo críticos de sua música costumam reconhecer o domínio técnico do instrumento: afinação precisa no soprano, controle de dinâmica e uma sonoridade muito consistente.

Respiração circular e o recorde da nota mais longa

A técnica que mais chama a atenção na carreira de Kenny G é a respiração circular. Ela permite manter o som do instrumento sem interrupção enquanto o músico respira: o ar acumulado nas bochechas é empurrado para o instrumento ao mesmo tempo em que se inspira rapidamente pelo nariz. A técnica não foi inventada por ele — é antiga em instrumentos de sopro de várias tradições, e saxofonistas de jazz como Rahsaan Roland Kirk já a usavam —, mas Kenny G a transformou em marca.

Em 1997, numa loja de instrumentos em Nova York, ele sustentou uma única nota — um Mi bemol — por 45 minutos e 47 segundos, estabelecendo o recorde mundial de nota mais longa sustentada num saxofone. Nos shows, notas longas sustentadas por vários minutos viraram um momento esperado pelo público.

O debate com o jazz

A popularidade de Kenny G veio acompanhada de uma rejeição forte de parte da crítica e de músicos de jazz, que viam no smooth jazz uma diluição do gênero: pouca improvisação arriscada, harmonia previsível e um som pensado para o fundo, não para a escuta atenta.

O episódio mais conhecido envolveu o guitarrista Pat Metheny. Em 1999, Kenny G lançou uma versão de “What a Wonderful World” em que sobrepunha seu sax à gravação original de Louis Armstrong. Metheny escreveu uma crítica dura, tanto à musicalidade de Kenny G — que considerou de vocabulário simplista — quanto, principalmente, à ideia de tocar “por cima” de Armstrong, um dos fundadores do jazz.

O debate nunca se resolveu, e diz muito sobre a própria história do jazz, um gênero que sempre conviveu com tensões entre arte e entretenimento, entre vanguarda e público. Em 2021, o documentário Listening to Kenny G, da HBO, voltou ao tema e examinou por que um músico tão popular é, ao mesmo tempo, tão rejeitado por parte de seus pares.

Legado

Independentemente da posição no debate, o impacto de Kenny G é concreto. Ele levou o saxofone a um público que dificilmente ouviria jazz tradicional, ajudou a consolidar um formato radiofônico inteiro e inspirou muitos músicos a começarem no instrumento — especialmente no soprano. E sua trajetória continua sendo um bom ponto de partida para discutir o que é jazz, quem decide isso e o que acontece quando um gênero de nicho encontra o mercado de massa.

Se a história de Kenny G despertou vontade de tocar sax, nosso guia de saxofone para iniciantes explica por que o alto costuma ser o primeiro, como escolher a palheta certa e o que conferir na mecânica antes de comprar.