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Rock

Phil Collins: do Banquinho do Genesis ao Som de Bateria dos Anos 80

Para grande parte do público, Phil Collins é o cantor de baladas que dominou as rádios nos anos 1980. Mas, antes disso, ele era um dos bateristas mais respeitados do rock progressivo — e foi justamente o baterista, mais do que o cantor, quem deixou a marca técnica mais duradoura na música popular. O som de bateria seco, explosivo e enorme que define a produção dos anos 1980 tem muito a ver com experimentos dos quais Collins participou diretamente. Esta é a trajetória musical dessa transição — do banquinho do Genesis ao microfone, e da bateria acústica ao som processado e eletrônico.

O baterista do Genesis

Philip David Charles Collins nasceu em 30 de janeiro de 1951, em Londres. Em agosto de 1970, depois de uma audição, entrou para o Genesis como baterista. A banda, então uma das forças em ascensão do rock progressivo britânico, tinha Peter Gabriel como vocalista e compunha músicas longas, com mudanças de compasso, passagens instrumentais elaboradas e forte carga teatral.

Nesse contexto, Collins se destacou como um baterista técnico e musical, capaz de tocar compassos irregulares com naturalidade e de acompanhar dinâmicas que iam da delicadeza ao peso. Também começou a cantar backing vocals e, eventualmente, a assumir algumas faixas como vocalista principal.

Paralelamente, entre 1975 e 1979, tocou com o Brand X, um grupo de jazz fusion em que a bateria tinha papel ainda mais virtuosístico. A experiência no fusion ajudou a refinar seu vocabulário rítmico e sua técnica — algo que se ouviria depois mesmo em suas canções pop mais simples.

De baterista a vocalista

Em 1975, Peter Gabriel deixou o Genesis. A banda fez audições com centenas de cantores sem encontrar um substituto adequado, e acabou optando pela solução que estava dentro de casa: Phil Collins assumiu os vocais durante a gravação de A Trick of the Tail, lançado em 1976. O disco foi bem recebido e mostrou que o Genesis podia continuar sem Gabriel.

A mudança criou um problema prático: quem tocaria bateria ao vivo enquanto Collins cantava? A solução foi contratar bateristas de turnê — primeiro Bill Bruford, depois Chester Thompson, que ficou com a banda por muitos anos. Collins continuava gravando as baterias em estúdio e, ao vivo, frequentemente voltava ao kit nas passagens instrumentais, em duetos de bateria com Thompson que se tornaram um momento esperado dos shows.

Com Collins à frente, o Genesis foi gradualmente trocando o rock progressivo longo e teatral por canções mais diretas, e entrou em sua fase de maior sucesso comercial nos anos 1980.

A descoberta do gated reverb

O momento técnico mais importante da carreira de Collins aconteceu fora do Genesis. Em 1979, ele tocou bateria nas sessões do terceiro álbum solo de Peter Gabriel, no Townhouse Studios, em Londres, com os engenheiros e produtores Hugh Padgham e Steve Lillywhite. Gabriel pediu que Collins tocasse sem pratos, deixando os tambores mais em evidência.

Durante as sessões, Padgham percebeu algo ao abrir um microfone de ambiente fortemente comprimido, captando a sala: o som da bateria ficava gigantesco. A equipe então passou esse sinal por um noise gate — um processador que corta o som assim que ele cai abaixo de certo volume. O resultado foi uma batida com o “tamanho” de uma grande reverberação de sala, mas cortada abruptamente, sem a cauda longa que normalmente embola a mixagem.

Esse efeito, que ficou conhecido como gated reverb, aparece com destaque em “Intruder”, a faixa de abertura do disco de Gabriel. Experimentos semelhantes já vinham acontecendo em outros estúdios, mas foi a partir dessas sessões que o som ganhou projeção — e Collins levaria a ideia ao grande público pouco depois.

“In the Air Tonight”: bateria eletrônica e bateria processada

Em janeiro de 1981, Collins lançou “In the Air Tonight”, primeiro single de seu álbum solo de estreia, Face Value, coproduzido com Hugh Padgham. A faixa chegou ao segundo lugar no Reino Unido e ao topo das paradas em vários países europeus.

A construção da música é um estudo de contraste. Durante quase toda a primeira metade, o ritmo vem de uma bateria eletrônica: uma Roland CR-78, uma das primeiras drum machines programáveis de uso amplo, com um padrão pré-programado e alguma programação adicional. O clima é contido, quase hipnótico, com teclados e voz.

Então, perto da metade da canção, entra a bateria acústica processada com gated reverb — a virada de tons que se tornou uma das mais reconhecíveis da história do pop. O impacto vem justamente da espera: depois de minutos de batida eletrônica discreta, a bateria real explode com um som enorme e seco.

A combinação de bateria eletrônica e bateria acústica processada foi pioneira no pop de grande circulação, e “In the Air Tonight” se tornou um modelo do que a tecnologia de estúdio podia fazer pela bateria.

O som de uma década

O gated reverb se tornou uma das marcas sonoras mais fortes dos anos 1980. Pouco depois, processadores digitais como o AMS RMX16, com seu algoritmo “NonLin”, passaram a simular o efeito diretamente, tornando-o acessível a qualquer estúdio. Baterias de discos de rock, pop e até de trilhas sonoras passaram a soar “grandes e cortadas”, e a fronteira entre bateria acústica, bateria processada e bateria eletrônica ficou cada vez mais tênue.

Collins seguiu usando o recurso em seus discos solo e com o Genesis, e também como músico e produtor de outros artistas — tocou e produziu discos de Eric Clapton nos anos 1980 e gravou bateria nos primeiros álbuns solo de Robert Plant, além de ter participado anteriormente de discos de Brian Eno. Em 1985, no Live Aid, tornou-se o único artista a se apresentar nos dois palcos principais, em Londres e na Filadélfia, no mesmo dia.

Legado

Collins acumulou oito prêmios Grammy, um Oscar e um Globo de Ouro de melhor canção original por “You’ll Be in My Heart”, da trilha de Tarzan (1999), e foi induzido ao Rock and Roll Hall of Fame como integrante do Genesis em 2010. Está entre os poucos artistas que venderam mais de 100 milhões de discos tanto em carreira solo quanto com sua banda principal.

Mas, para bateristas e produtores, o legado mais concreto talvez seja outro: a ideia de que o som da bateria podia ser construído no estúdio — combinando máquinas, microfones, salas e processadores —, e não apenas captado. Essa ideia está na base de praticamente toda a produção de bateria moderna, das baterias eletrônicas aos plugins de mixagem.

Se essa história despertou vontade de experimentar o lado eletrônico do instrumento, nosso guia de bateria eletrônica para iniciantes explica como escolher o primeiro kit — de pads e módulo a fones de ouvido.