Sivuca: o Sanfoneiro Paraibano que Levou o Fole ao Mundo
A sanfona entrou na música brasileira pelas feiras, festas juninas e forrós do Nordeste, e chegou ao país inteiro pelas mãos de Luiz Gonzaga. Mas foi com Sivuca que ela mostrou até onde podia ir tecnicamente. Virtuose, arranjador, compositor e multi-instrumentista, Sivuca tocou baião e frevo no rádio de Recife, jazz e bossa nova na Europa, música sul-africana e caribenha em Nova York e, no fim da vida, gravou sua sanfona à frente de uma orquestra sinfônica. Esta é a história dessa trajetória musical — e de por que ela é tão importante para quem quer entender o que a sanfona é capaz de fazer.
Itabaiana: a sanfona aos nove anos
Severino Dias de Oliveira nasceu em 26 de maio de 1930, em Itabaiana, na Paraíba. Ganhou sua primeira sanfona aos nove anos, em 1939, e logo passou a tocar em feiras e festas da região — a escola de praticamente todo sanfoneiro nordestino da época, em que se aprendia a tocar horas seguidas, para dançar, com repertório variado e muita improvisação.
O talento precoce o levou a Recife ainda adolescente. Por volta dos 15 anos, já se apresentava no rádio pernambucano, e em 1948 integrava o elenco da Rádio Jornal do Commercio, uma das emissoras mais importantes do Nordeste. O rádio era então o grande palco da música brasileira, e as emissoras mantinham orquestras e conjuntos próprios — um ambiente exigente, em que Sivuca precisava ler partitura, tocar repertório de vários gêneros e acompanhar cantores com pouco ensaio.
A parceria com Hermeto Pascoal
Foi nesse período que se deu um dos encontros mais curiosos da música brasileira. Ainda jovem, Hermeto Pascoal tocou com Sivuca, que se tornou uma espécie de mestre para ele — a ponto de o jovem alagoano ganhar o apelido de “Sivuquinha”. Os dois, junto com o irmão de Hermeto, formaram por um breve período um trio de sanfonas chamado O Mundo em Chamas, e percorreram o Nordeste tocando em festas.
A parceria é significativa porque une dois dos músicos mais inventivos que o Brasil produziu, ambos com raízes na sanfona e ambos com uma curiosidade sem limites por harmonia e improvisação. Hermeto seguiria seu caminho como um dos grandes nomes da música instrumental brasileira; Sivuca, como o grande virtuose da sanfona.
Rio de Janeiro e as primeiras gravações
Em 1951, Sivuca gravou seu primeiro disco de 78 rotações, pela gravadora Continental, e teve seu primeiro sucesso nacional com “Adeus, Maria Fulô”. Em 1955, mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital do país e centro da indústria fonográfica e do rádio.
Sua técnica impressionava: velocidade, precisão, domínio do fole para criar dinâmica e, sobretudo, um conhecimento harmônico raro entre sanfoneiros da época. Sivuca transitava com naturalidade entre o baião, o choro, o frevo e a música de salão, e tocava também violão, guitarra e piano.
Europa: Lisboa, Paris e a crítica francesa
No fim dos anos 1950, Sivuca viajou para a Europa como sanfoneiro do grupo Os Brasileiros, e acabou ficando no continente, vivendo em Lisboa e depois em Paris. Na capital francesa, onde a música brasileira — especialmente a bossa nova — despertava enorme interesse, gravou discos voltados a esse público e se apresentou em casas noturnas e festivais. Em 1962, foi apontado pela imprensa parisiense como o melhor instrumentista do ano.
A experiência europeia ampliou seu repertório e o colocou em contato com o jazz e com a música de concerto, influências que marcariam todo o seu trabalho posterior.
Nova York: Miriam Makeba e Harry Belafonte
Em 1964, Sivuca se mudou para Nova York, onde viveria até 1976 — mais de uma década no centro da indústria musical norte-americana. Ali, trabalhou com dois dos artistas que mais projetavam músicas do mundo para o público dos Estados Unidos.
Com a cantora sul-africana Miriam Makeba, atuou como músico e arranjador, assinando o arranjo de “Pata Pata”, um dos maiores sucessos da carreira dela, e excursionando com ela pelo mundo no fim dos anos 1960.
Em seguida, a convite de Harry Belafonte, entrou para sua banda em 1971 e permaneceu até 1975, como guitarrista, tecladista e arranjador. Nesse período, participou de turnês e gravações ao vivo de Belafonte — tocando sanfona, piano, órgão e violão — e, em 1971, trabalhou nos arranjos de um especial de televisão da NBC com Belafonte e Julie Andrews.
Para um sanfoneiro nordestino, era um feito extraordinário: Sivuca se tornou um profissional requisitado no mais competitivo mercado musical do mundo, não como atração exótica, mas como arranjador e multi-instrumentista de primeira linha.
A volta ao Brasil e as canções
De volta ao Brasil em meados dos anos 1970, Sivuca viveu uma fase de grande produção como compositor e intérprete. Duas canções em especial entraram para o cancioneiro brasileiro:
- “João e Maria”, melodia de Sivuca que ganhou letra de Chico Buarque — uma das canções mais delicadas do repertório de Chico, sobre a imaginação da infância.
- “Feira de Mangaio”, parceria com a compositora Glorinha Gadelha, sua esposa — um retrato vibrante das feiras nordestinas onde Sivuca começou. Composta ainda nos anos de Nova York, foi gravada primeiro pelo próprio Sivuca e se tornou um grande sucesso na voz de Clara Nunes, no LP Esperança, de 1979.
Nos anos 1980, gravou com o gaitista belga Toots Thielemans, um encontro entre dois virtuoses de instrumentos de palheta livre, e seguiu colaborando com artistas brasileiros e estrangeiros.
A sanfona sinfônica
Um dos projetos que melhor resumem a ambição de Sivuca foi o disco Sivuca Sinfônico, lançado em 2006 com a Orquestra Sinfônica do Recife, em que a sanfona aparece como instrumento solista à frente da orquestra. No mesmo ano, foi lançado o DVD Sivuca – O Poeta do Som. Sivuca morreu em 14 de dezembro de 2006, em João Pessoa, aos 76 anos. Seu acervo musical foi doado à Fundação Joaquim Nabuco, em Recife.
O legado técnico
A contribuição mais duradoura de Sivuca é ter demonstrado que a sanfona — muitas vezes vista como instrumento “regional”, restrito ao forró e às festas juninas — podia ocupar qualquer espaço musical: o rádio, o jazz, a música africana e caribenha, a canção de autor e a orquestra sinfônica. Sua técnica, seu domínio harmônico e sua versatilidade continuam sendo referência para sanfoneiros e acordeonistas de todas as tradições.
Se a trajetória de Sivuca despertou vontade de aprender o instrumento, nosso guia de sanfona e acordeon para iniciantes explica a diferença entre a sanfona de oito baixos e o acordeon de 120 baixos, e como escolher o primeiro fole sem errar de instrumento.